Conto – Marcos

Conto escrito por Carolina Fernandes

Marcos passava a maior parte da vida dele tentando se controlar. Quando ia a uma festa, dançava discretamente, reprimindo sua vontade de dançar loucamente, balançando os braços com seu modo desajeitado de se mover. Quando estava com os amigos, nunca ria alto como tinha o desejo de fazer. Certa vez lhe disseram que sua risada era muito estranha, e desde então tentava ajustá-la para um jeito que entendeu ser mais aceitável.  Sempre tentando se adequar, ignorava a sensação de vazio que sentia no peito, como se parte dele estivesse estagnada, presa em algo do qual ele não conseguia se libertar.

Apesar disso, Marcos considerava que, seguindo as regras da normalidade, conseguiu conquistar várias coisas: uma namorada que o impedia de parecer sozinho, amigos que o proporcionavam uma vida social e várias fotos no Facebook, e o que mais buscava na vida: a total aprovação da sociedade. Ou, pelo menos, era assim que se sentia: aprovado.

Mas o que o incomodava era sua peculiaridade. Guardava para si seus gostos exóticos, sua vontade estranha de seguir seus impulsos como uma criança: saltar do terceiro degrau da escada, pisar em poças d’água, catar pedras que achava bonitas no caminho de casa, e por aí vai. Porém as chances de ser tratado como alguém imaturo que não soube crescer o aterrorizavam, então tentava se comportar como os outros.

De vez em quando ele fazia testes para ver se seus gostos exóticos seriam aceitos. Certa vez estava em uma feirinha com sua namorada, quando pararam em uma barraquinha que vendia chapéus de todos os tipos. Um deles tinha orelhas de urso marrons, com uma parte mais comprida que cobria as orelhas com pelos artificiais que pareciam de pelúcia.

Marcos sempre quis um chapéu com orelhas de urso.

Ele perguntou como quem não quer nada, num tom de brincadeira:

– O que você acha de eu usar um chapéu desses?

 A garota riu na hora.

– Nossa, seria tão patético! Não entendo essas pessoas, será que elas não têm senso do ridículo?

O fato de ele esperar por isso não o fez se incomodar menos. Mas ele riu na ocasião, concordando com ela. Não podia correr o risco de ficar sozinho.  Ainda não tinha percebido que já estava.

Não foi muito tempo depois disso que ocorreu algo que mudaria o rumo da sua vida para sempre.

O verão tinha acabado de chegar com tudo, e o ar parecia pesado com o calor que o abafava e fazia a pele das pessoas transpirar.  Naquele dia, uma daquelas chuvas rápidas começou a cair, refrescando o ambiente e afugentando os despreparados sem guarda chuva da rua. Logo o que mais se via pela frente eram guarda chuvas e pessoas se abrigando, reclamando sobre como seus sapatos estavam molhados e os cabelos bagunçados pela agua.

Havia apenas uma pessoa que sorria com a chuva.

Não era Marcos. Ele estava no grupo dos que se lembraram de levar um guarda chuva, e lutava para chegar logo em casa. Até que ele ouviu as pessoas murmurando:

– O que ela está fazendo?

– Que garota louca!

– Tomara que pegue um resfriado pra aprender!

Ele olhou na mesma direção daquelas pessoas, sem saber direito o que pensar.

Era apenas uma garota dançando na chuva.

Então porque seu coração estava tão acelerado?

Ela estava sem o guarda chuva, sorrindo e girando, parecendo totalmente alheia das pessoas que estavam ao seu redor.  Ela não parecia estar fazendo aquilo para chamar atenção. Parecia fazer simplesmente porque a deixava feliz.

Marcos ficou deslumbrado com aquilo.

Ela usava um vestido soltinho, tinha os cabelos pretos ondulados cortados um pouco acima dos ombros e olhos incisivos que pareciam avivar tudo o que tocavam.

Nesse momento ele não pôde se controlar. Ele precisava falar com ela. Perguntar como podia fazer aquilo no meio de tanta gente e não se importar. Mais importante, estar feliz fazendo aquilo. Ele caminhou na sua direção, os passos hesitantes, tão alheio do mundo que nem reparou que havia deixado o próprio guarda chuva para trás. Então perguntou.

E depois que ouviu a resposta deixou o universo trancafiado em que vivia para trás. Ele nunca mais voltaria a habitá-lo pelo resto de sua vida, e ele se transformaria em uma lembrança despedaçada pelo tempo e pela vontade.

Ele passou a rir verdadeiramente, dançar como queria, visitar lugares diferentes para os quais sempre quis ir, se vestir com conforto, deixar de malhar obsessivamente, e, finalmente, comprou o seu tão esperado chapéu de urso. Ele o usava de vez em quando para sair com a garota da chuva, Charlotte, com quem passou a namorar. Assim que começou com seus hábitos estranhos, sua ex-namorada terminou com ele, fazendo-o sentir um inesperado alívio no peito.

As vezes, ele, Charlotte e o grupo de amigos dela que passou a ser dele também, iam para algum lugar isolado se deitar no chão ao ar livre e olhar o céu estrelado que se estendia sobre eles. Sempre que faziam isso ele ficava quase sem fôlego, seu coração sendo dominado por uma paz aconchegante enquanto pensava em como seu mundo brilhava tanto quanto aquelas estrelas quando estava com ela. Nesse momento sempre chamava seu nome, apenas para seu rosto se virar em sua direção e seus olhos observarem as estrelas refletidas nos intensos olhos de Charlotte.

Ele segurava sua mão e pensava em mil formas de fazê-la mais feliz. Mas sempre que a perguntava, ela dizia que continuar seguindo em frente daquela forma era a verdadeira felicidade para ela. Sem olhar para os lados. Apenas seguindo o coração.

Então ele se lembrava das suas palavras debaixo da chuva de verão, aquelas que mudaram sua vida.

“A única coisa mais infeliz que estar cercado de pessoas que não te aceitam, é você não aceitar a si mesmo”.

* Carolina Fernandes é autora do livro Metamorfose. Meio nômade, quase publicitária e inteiramente cristã, dedica seu tempo livre a tudo o que tem a ver com ler e escrever quando não está assistindo animes, doramas, séries, fazendo docinhos ou conversando horas no WhatsApp. 

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