Conto – O Esquecido

CAPA DO CONTO SOBREVIVENTES DO APOCALIPSE

Sorte que meu pai tinha ido viajar e só voltaria daqui uma semana, acho que ela já estava uns três ou quatro dias fora. Não Lembro ao certo. Só sei que eu estava sozinho na minha casa e pronto para finalizar mais um game. Cara, como demorou  para eu comprar aquele jogo.  Acredita que eu tive que esperar minha mãe ir pra casa da minha vó lá em Campinas, para só então ter o caminho livre para poder ir à loja comprar o game? E como nem meu pai nem minha mãe estavam para me infernizar… Tive o tempo todo para mim. Podia fazer o que eu bem entendesse. Seria tão bom não tê-los por perto por alguns dias… Eu teria televisão e geladeira só pra mim. Podia dormir e acordar a hora que desse vontade. Bem, eram essas besterias que eu pensava…

Minha mãe, antes de sair, até brigou comigo. Dizia ela que eu iria fazer traquinagem se ficasse sozinho. Ela disse que eu provavelmente compraria mais um dos meus jogos que diz ela “ser violento”. E isso ela acertou, confesso. Mas quando ela chegasse já teria finalizado o jogo e já quase nem jogaria enquanto ela estivesse por perto, só nas madrugadas, claro.

Para conseguir jogar e ter mais paz nesses dias que estava sozinho, tinha tirado o telefone do gancho e deixado a bateria do celular descarregar de propósito… Assim seria melhor, tive mais paz para mim.

Estava jogando seis horas seguidas, já estava, eu acho, com quarenta e oito por cento do jogo concluído e uma fome infernal. Precisava ir comprar comida urgente. A minha sorte é que o mercado ficava super perto do nosso condomínio privado e, de bicicleta, ficava uma pedalada de distância. Até pensei que não estivesse aberto pela hora que era, mas para a minha sorte estava sim.  Comprei umas seis caixas de pizzas, essas de colocar no micro-ondas ou no forno, sabe? Tinha pagado com o cartão de débito do meu pai, era uma maravilha, nem precisava ver o preço das coisas, só passava o cartão e tudo certo.

Na volta, com minha bicicleta, passei na frente de uma loja de manutenção de televisões que estava passando um jornal, desses com apresentador e tudo. Tinha Visto de relance uma multidão se aglomerando e dizendo algo que não pude entender, pelo fato da televisão estar com o volume muito baixo. Só sei que na “TV” o jornalista estava sendo atacado por alguém. Nem dei bola, “tava” nem aí para o acontecido, naquele momento só pensava no meu game. Tinha chegado ao portão do condomínio e mal cheguei já abriram pra eu entrar. Às pressas, joguei a “bike” num canto da grama e fui rapidamente para a cozinha. Liguei a pizza no micro e abri o refri e botei gelo. Tomei uns dois ou três copos e aí ouvi o apito do micro ondas: “Tim!” era o sinal de que já poderia avançar para devorar minha pizza, igual um zumbi faz nas suas vítimas. E, falando em zumbis, era esse o tema do game que tinha comprado. No jogo, o cara tinha que levar uma guria sabe-se lá onde e não sei por que, só lembro que estava chegando bem longe. Nem sei como tinha conseguido chegar tão longe sem entender nada de inglês. Deve ter sido porque a trama era envolvente e me fazia querer jogar mais e mais… Havia vários monstros e zumbis. Era tipo o apocalipse zumbi!

Mais umas horas jogando aquilo e achei que iria ficar “lelé”. Pois não era igual a realidade.

“Mais uma rodada de pizza!” pensava eu enquanto ia à cozinha imaginando se ainda tinha ketchup. Enquanto comia eu pensava: “como será que fica a cor do sangue de um zumbi”? É vermelha ou mais perto da cor preta avermelhada? Sei lá “! É… na época pensava-se essas besteiras.

No segundo dia, depois de ter acordado super tarde, estava com uma “baita” fome e com muita vontade de usar o banheiro. Enquanto urinava, via da janelinha um caminhão do exército passando pela rua do condomínio. “Que zoeira!” sempre quis ver esses caminhões, cara, como são bonitos! Ao mesmo tempo em que pensava sobre isso imaginava o motivo do meu xixi estar alaranjado. Não  tinha chegado a nenhuma conclusão. Mas do lado de fora parecia que os vizinhos brigavam com os soldados, nem quis sair pra ver, vai que sobraria tiro? Mas digo que fiquei curiosíssimo. Então Fui ao computador falar as boas novas… falar que tinha um caminhão do exército na casa do vizinho. Tava cheio de mensagem e vídeos nos sites. Que loucura, zumbis no Brasil? Propaganda legal que estariam fazendo, seria muito melhor se eu conseguisse acessar os links. Porém cada site que eu entrava estava fora de ar ou o vídeo não podia ser encontrado, outros até tinham um selo digital da polícia. “Quer saber? Que se dane, vou jogar meu game, já que ninguém está on-line mesmo”. Pensei naquele momento. Mas antes de fazer isso resolvi ligar pra minha mãe, ela já devia estar preocupada comigo. Mas não dava linha no telefone, mas é claro que não ia dar sinal, eu tinha desligado da tomada. Mesmo depois de conectar, nada de linha.  Aí eu pensei em usar o celular. Bateria morta. “Ah, depois eu ligo pra ela,” decidi naquele momento.

Acho que já tinha jogado muitos jogos, e já até tinha terminado o que comprei. Não tinha também conseguido falar com minha mãe, e nem com meu pai, que já deviam estar por aqui. Pensando bem, ficar sozinho não foi tão legal. não havia ninguém no condomínio, apenas um carro com um monte de bagagem em cima. Estava ficando preocupado. Nem os jogos tinham graça mais, já que não conseguia jogar on-line… Acessar a internet… Telefonar… E ainda por cima, nem a TV funcionava… Então fui dormir pra ver se quando acordasse as coisas já teriam voltado ao normal.

Depois de alguma horas tinha acordado com o som de um alarme. Tinha vindo do vizinho, a casa do Deputado. Eu tinha estranhado e fui ver da janela da minha casa, puxei de ladinho à cortina e analisei a situação. Era muito estranho aquilo. “Ei, espera! Estão entrando na casa dele! Preciso fazer algo!” pensava. Em baixo da escada tinha aquela ‘espingardinha’ que meu pai sempre guardava e fui usar contra os invasores; desci às pressas, pegava a arma e corria para o quarto do meu pai e peguei algumas balas para usar de munição. Que besteira, o que eu iria fazer? Nada, na verdade. Mas mesmo assim fui lá ver.

Ao sair de casa, tinha visto umas silhuetas ao longe, parecia que procuravam algo e estavam na direção oposta da casa do Deputado. Resolvi ir ver esses caras cambaleantes antes de checar os invasores, na casa do deputado. “Espera, esses caras não estão bem” pensei. E… droga! Eles tinham me visto e começaram a vir na minha direção! Não podia ser! Eles eram … Eram… ZUMBIS!

Suas peles mortas caídas nos rostos carcomidos, o cheiro de podridão nos mortos, dos estômagos deles à mostra, dos ossos expostos, tudo  ficou  com um cheiro forte quando chegaram perto. Os corvos tentavam pagar os pedaços de pele morta dos coitados, mas eram devorados pelas criaturas que olhavam fixamente para mim enquanto mordiam as cabeças das aves, o globo ocular pendurado no que parecia ser um rosto ainda revirava para todas as direções procurando por mais vítimas. As tripas de um deles caia pelo chão e era esmagada com o próprio pé ao caminhar. As roupas sujas de sangue, dele mesmo e das vítimas, eram imundas. Atrás deles mais zumbis. Um ainda tinha a pele corada, tinha acabado de virar um deles e nesse o olhar humano era apagado pelo olhar sem vida da criatura. O apocalipse começou e eu nem vi como aconteceu.

Comecei desesperadamente correr até a casa do deputado! Mas já era tarde!  Os intrusos da casa do político já tinham pegado o carro esportivo e tinham  se mandado. Só os vi lá longe !

—Esperem! Me esperem! Não me deixem com essas coisas aqui! Eles são zumbis! Vão me pegar e me matar! Esperem! Não! Me esperem.

Não adiantava, era tarde. Não tinham me visto. Os zumbis se aproximaram mais perto e já podia ouvir os gemidos deles, a dor das criaturas eram tão profundas que senti o medo percorrer em minhas veias. Eles já estavam em grandes números. Eram pessoas normais, vizinhos de um condomínio, soldados do exército, amigos. “Vou morrer nas mãos desses zumbis!” pensei.
Mas só pensei.


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O conto foi escrito com base em uma cena que ocorreu no livro: Sobreviventes do apocalipse, de nossos autores e colaboradores, Wesley e Jaíne Belmonte!

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