No Cume da Montanha

   Era de manhã quando fui acordar os homens do meu pelotão para a marcha. Não sabíamos o que iríamos encontrar e tudo o que sabíamos tinha sido ensinado ainda no Brasil. O que nos faltava seria ensinado em campo de batalha, na verdade nosso treinamento era totalmente diferente do cenário que iríamos encontrar. Quando fomos adestrados, erámos doutrinados com armamentos franceses com táticas e técnicas francesas. Tudo o que conhecíamos era baseado em conceitos franceses.

   A marcha dessa manhã era diferente da primeira que tivemos em solo italiano, a começar pela nossa farda que agora é mais grossa e consegue suportar o frio e resistir bem mais do que a antiga que usávamos no momento da nossa chegada. Naquele dia, no primeiro de todos, tínhamos um uniforme totalmente tropical e extremamente semelhante ao uniforme do eixo. Quase que imediatamente começamos a fazer nossas primeiras modificações na vestimenta e dando quase todos os maços de cigarros e latas de comidas para ter um uniforme semelhante aos dos Estados Unidos. Mal sabíamos que receberíamos o mesmo que os dos E.U.A. Outra semelhança é que agora nossas armas e técnicas foram atualizadas, mas a experiência em batalha moderna só virá ao contato com o primeiro inimigo, e hoje será o dia.

   Depois de termos marchados a uma distância de quase cinco quilômetros chegamos ao posto de comando, de lá pegaríamos um caminhão para o declive do monte. A essa altura já escutávamos as explosões de artilharia, granadas e morteiros misturados com tiros de fuzis, metralhadoras e pistolas entrelaçando-se uns contra os outros. A tensão aumentou quando vi um de meus homens rezando com o terço em mãos, outros faziam sinal da cruz e poucos olhavam para o nada respirando com nervosismo sem parar, eu estava entre esses também. Os tiros e explosões estavam cada vez mais próximos à medida que chegávamos mais perto do sopé. Dois minutos depois e o caminhão parou, mal saímos e o soldado Agripino foi atingido por um balaço na cabeça. A defesa deles estava com muito mais campo de visão que cada um de nós poderia ter. A metralhadora alemã não parava de ceifar vidas, tantas americanas quanto brasileiras. Nos primeiros 50 metros vi colegas perderem suas vidas em um piscar de olhos, outros clamavam por ajuda que não chegaria, outros chamavam a mãe e choravam. Explosões e mais explosões caiam perto de nós. Meu pelotão seguia quase sem baixa, corríamos, atirávamos e nos protegíamos em arvores, pedras e obstáculos do inimigo. Chegamos ao primeiro bunker e lá colegas foram feridos. Então por lá ficamos. Não ouve mais avanço.

   A “task force” dos EUA não conseguiu alcançar o flanco que nos protegeria. Horas e horas passaram e os tiros não paravam, até que vi o capitão no rádio, seu semblante cansado e sujo de lama não gostou da informação, nós iríamos recuar deixar pra trás o campo de batalha que por onze horas foi nosso inferno.

   Este foi nosso batismo de fogo, em 1944 na Itália, quando a cobra fumou.

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