Adolescência | Netflix
******************************NÃO contém spoiler******************************
Depois de muito tempo da estreia e depois de se tornar um dos grandes campeões do Emmy de 2025, resolvi conferir a aclamada e irretocada minisérie Adolescência da Netflix. Descrita como impactante, reflexiva e desconfortável, a mesma nos mergulha em um relato onde a realidade transcende a ficção, sendo daí a origem da mais incômoda experiência que um telespectador pode ter com algo tido como ficcional.
Retratando a jornada de um adolescente que é preso misteriosamente, Adolescência nos leva a reflexões pesadas sobre a importância da família, dos amigos e da inteligência emocional quase inexistente no atual momento em que vivemos. Com planos sequência reais, a série não nos dá tempo para respirarmos, quase como se estivéssemos em tempo real ao lado dos personagens, acompanhando seus desesperos e dilemas diante de uma situação surreal. O espectador não é levado de cena em cena, sendo aliviado com cortes entre uma e outra; mas é mergulhado, quase asfixiado em um ambiente onde a tensão cresce minuto a minuto. A direção, muito inteligente e audaciosa, trabalha o realismo, deixando em cena momentos de falhas percebidas, como excessos respiratórios, olhares desconexos dos atores, gestos e pausas vistas em suas maioria como inatural, mas que aqui, reforça a naturalidade e autenticidade da produção.
Criada por Stephan Graham – também um dos protagonistas – Adolescência causa impacto, desconforto e exige atenção constante. Não é uma série leve e nem irregular. É profunda e o impacto emocional não é evitável. Quase como o irmão gêmeo de Precisamos Falar sobre o Kevin da autora Lionel Shriver, a obra nublada da gigante do streaming se torna ainda mais profunda, quando a verossimilhança vem à tona, colocando a sociedade como juíza e condutora da narrativa, onde vitíma e culpado se mesclam em uma narrativa obscura sobre o poder das redes sociais, destacando o movimento incel que vem crescendo dia a dia, se tornando o mal incontrolável entre os jovens. Nao é uma série fácil de ser assimilada, mas é necessária e deveria ser conferida por todos. De alto nível e psicologicamente incômoda, Adolescência por si só já se justifica em seus primeiros minutos e sustenta com maestria todos os elogios e prêmios que recebeu. Uma obra-prima da ficção e minisséries.
Elenco:
Difícil analisar uma série como essa e não destacar o elenco impecável. Owen Cooper é um gênio que nasce entre os gigantes, sendo impossível não destacar sua atuação como o jovem incompreendido, perdido e perigoso, sendo um trabalho magnífico que cresce episódio a episódio, nos deixando perplexos com as nuances de sua atuação. Stephen Graham e Christine Tremarco, os pais do protagonista, complementam e preenchem a tela com seus trabalhos viscerais, nos entregando tanta verdade, que é quase que inevitável não enxergarmos Adolescência como ficção. Ashley Walters é tão monstruoso que sua atuação cresce mais que o personagem que a carrega, colocando o referido ator acima do enredo, assim como seus pares. Erin Doherty é sem comentários, seus gestos, seus olhares, respirações, postura, tudo digno de uma excelente atriz que interpreta sem medo. No geral, a série é quase sem falhas e as falhas que existem, soam como propositais, elevando ainda mais toda a genialidade desta que é realmente como dizem a crítica especializada, uma jóia entre as grandes do gênero.
Prêmios:
Gotham TV Awards 2025
- Melhor série limitada
- Melhor atuação principal em série limitada (Stephen Graham)
- Melhor atuação coadjuvante em série limitada (Owen Cooper)
Emmy Awards 2025
- Melhor minissérie ou antologia
- Melhor ator principal em minisséries ou antologia (Stephen Graham)
- Melhor ator coadjuvante em missérie ou antologia (Owen Cooper)
- Melhor atriz coadjuvante em minissérie ou antologia (Erin Doherty)
- Melhor roteiro em minissérie, antologia ou filme para TV (Jack Thorne e Stephen Graham)



