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Memórias Póstumas de Brás Cubas: Uma “análise” sobre o realismo de Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas: Uma “análise” sobre o realismo de Machado de Assis
4.5
******************************NÃO contém spoiler****************************** CONFIRA TAMBÉM A RESENHA DE DOM CASMURRO CLICANDO AQUI Autor: Machado de Assis Editora: Nova Fronteira / Literatura clássica Brasileira /... Memórias Póstumas de Brás Cubas: Uma “análise” sobre o realismo de Machado de Assis

******************************NÃO contém spoiler******************************

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Autor: Machado de Assis

Editora: Nova Fronteira / Literatura clássica Brasileira / 192 páginas

 

“AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER, DEDICO COM SAUDOSA LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS”

Como um pintor em frente a uma tela branca, Machado de Assis com Memórias Póstumas de Brás Cubas – um dos romances mais importantes da literatura brasileira – não apenas inaugura o realismo no Brasil, como retrata com acidez a realidade de uma sociedade fútil e preconceituosa, cujo o protagonista aparenta desprezar. Se despindo de suas travas morais, o defunto autor se utiliza de sua atual situação (a de estar morto) para entregar aos leitores as suas memórias póstumas regadas de muito cinismo, pessimismo, ironismo, acidez e franqueza. Tudo com uma narrativa “cativante” digna das memórias de quem viveu sem viver. Desta forma Machado de Assis, assim como Candido Portinari, pinta sua tela com perspicácia digna de alguém pronto a retratar a sociedade como ela deveria ser retratada. Como um sistema doente e fraco que precisava ser analisado até os mais fundos dos meandros que o compunha.

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.”

Estando além de qualquer julgamento ou punição social, Brás Cubas se utiliza de seus incômodos e liberdade recém adquirida para se expressar sobre as formas as quais enxerga a sociedade a qual fazia parte. Mesmo com tamanha genialidade do autor e com a capacidade manipulativa do protagonista, não devemos nos enganar mesmo que momentaneamente a repeito de sua emblemática figura e opiniões. Afinal de contas, em se tratando de alguém que viveu sem viver, o quão confiável ele se torna como narrador? Com uma estrutura narrativa longe da linearidade cronológica, a obra realista de Machado de Assis brinca através de um desenvolvimento onde os fatos vão se emaranhando entre si, formando a estrutura textual e se aproximando da verossimilhança presente nas memórias de qualquer ser humano vivo.

Lançado em 1881 em forma e estrutura de romance – depois de suas publicações folhetinescas – Memórias Póstumas de Brás Cubas retrata o Rio de Janeiro do século XIX e seus pilares sociais com muita convicção, reconstruindo o passado como verdade absoluta àqueles que ficaram. O que transforma também a obra clássica supracitada como um romance que flerta com diversos gêneros como o realismo impressionista, com o realismo fantástico ou até mesmo com a literatura menipeia (cômico-fantástico) como afirmava o crítico literário José Guilherme Merquior.

Rompendo com diversas tendências literárias da época, Memórias Póstumas de Brás Cubas não é apenas um marco para a literatura brasileira, como também um marco para a carreira do autor, já que “inaugura” também sua fase tida como a mais madura. Com  passagens duras, irônicas e líricas, o romance traz a tona críticas complexas e diversas intertextualidades que exigem do leitor uma leitura mais atenta e talvez uma bagagem literária e cultural mais abrangente. O que pode vir a incomodar, dificultar ou até mesmo enigmatizar o clássico aqui resenhado. O que não torna de forma alguma a leitura em um desafio impossível de ser enfrentado. O texto tem suas camadas a serem destrinchadas, e talvez essa seja um dos elementos que fazem de Memórias Póstumas um clássico a ser lido, relido e indicado para toda a eternidade. Memórias não é apenas uma obra crítica, como também filosófica ao ponto de confrontar nossas fraquezas diante da natureza, como mostrado no famoso e elogiado capítulo VII, em que o protagonista se encontra com a figura mitológica Pandora, construindo um diálogo capaz de deixar qualquer leitor boquiaberto.

Já li e reli Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro algumas vezes; e nunca me canso de me impressionar com a genialidade de Machado de Assis. Diferente do protagonista do  livro hoje resenhado, o autor encarou a vida com mais felicidade e positividade do que se pode imaginar; o que me faz admirá-lo ainda mais. De Brás Cubas podemos apenas parafrasear a si mesmo e resumi-lo como um miserável: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Já sobre Machado de Assis tenho que me utilizar  das palavras de Carlos Drummond de Andrade e dizer que é visível através de seus romances e visões realistas-ficcionais que: “Alguns apenas leem alguns capítulos da vida. Machado ousou ler o livro inteiro.”

PS. Memórias Póstumas e Brás Cubas, juntamente com Quincas Borba e Dom Casmurro formam a trilogia realista de Machado de Assis. Sendo Quincas Borba uma “continuação” de Memórias Póstumas. Devo frisar também que além das editoras abaixo indico também a edição a qual eu li e reli, da editora Nova Fronteira. Uma edição simples, mas muito boa e reflexo do excelente trabalho já conhecido da editora mencionada.

 

Já leu e não gostou? Leu e não entendeu? Achou tudo deveras enfadonho? Talvez você precise de uma ajudinha lendo alguma edição específica. Pra quem for reler (dar uma segunda chance a obra) ou ler pela primeira vez pro vestibular ou algo o tipo, indico a edição da editora Panda Books. Trata-se de uma edição ilustrada (ilustrações coloridas), com significados de palavras nos cantos das páginas e com diversas intervenções textuais. Ou seja, com requadros nos cantos das páginas com trechos da obra reescritos com uma linguagem mais moderna e de fácil entendimento. Se você for implicante como eu, não se preocupe, pois o texto original permanece nessa edição. Ela é apenas uma edição mais visual e “luxuosa”.

Agora se você já leu e for um fã de Memórias e de Machado de Assis, e estiver atrás de uma edição de luxo que não possua intervenções textuais, indico a edição da editora Antofágica. Capa dura, com ilustrações originais de Candido Portinari e com textos de especialistas da obra.

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Fernando Lafaiete

O que vocês devem saber sobre mim? Me Chamo Fernando Henrique Lafaiete, mas vocês podem me chamar de China. Apelido este, dado pelos meus melhores amigos. Sou viciado em leitura, sou poliglota, auditor de hotel, professor de inglês, fã de fantasia, fã de livros policiais, fã de YA, fã terror e fã de clássicos. Luto ao máximo contra o preconceito literário que alimenta a conduta dos pseudo-intelectuais e sou fã de animes e qualquer coisa que envolva super-heróis. Amo escrever todo tipo de texto, em especial resenhas. Espero que minhas opiniões sejam de alguma valia para todos que tiverem acesso as mesmas. Sou sempre sincero e me comprometo a dividir minhas opiniões da maneira mais verdadeira possível. Agradeço o convite para fazer parte do grupo de resenhistas do site e que minha presença aqui seja duradoura.

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