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Quincas Borba – Machado de Assis | Ao vencedor, as batatas!

********************************NÃO contém spoiler******************************

CONFIRA A RESENHA DE MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS CLICANDO AQUI

CONFIRA A RESENHA DE DOM CASMURRO CLICANDO AQUI

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Autor: Machado de Assis

Editora: Nova Fronteira / Literatura brasileira / 256 páginas

Ah… A loucura! A verdadeira forma lúcida de enxergar o mundo e suas distorções. A maneira tresloucada de ser são em uma sociedade doente. Seria a insanidade a válvula de escape ideial para quem procura a clareza diante da escuraridão da sociedade? Um questionamento tão tresloucado e sem sentido quanto as afirmações realizadas por Quincas Borbas acerca do mundo e suas relações interpessoais, impostas no romance que leva seu nome. Ou seriam tais indagações a pura lucidez e a insesatez estaria na verdade em quem as nega? Chegaremos lá caros leitores… uma coisa por vez.

O importante de se saber acerca deste aclamado romance, amado por muitos e detestado por vários outros, é que Quincas Borba não trata-se de uma obra enigmática difícil de ser compreendida. A sátira empregada na narrativa e suas camadas textuais são bastantes lineares e compreensivas, apesar de suas curvas, metafóras e analogias, muito presentes e que exercem muito mais do que apenas um elemento textual explanativo. O que faz da leitura de tão exigido clássico, em um processo divertido e muito mais fluído do que o esperado a princípio. Considerado por alguns a continuação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba se aprofunda nas questões humanitistas apresentadas brevemente no romance que o antecede, por assim dizer. Apresentando um personagem que herda de forma indireta a herança do personagem título – através do apadrinhamento de seu cachorro também chamado de Quincas Borba – acompanhamos a jornada de um “inocente indíviduo” que se deixa embrenhar em um suposto triangulo amoroso, que existe sem propriamente existir e que se desenvolve de maneira predatória e sem grandes freios emocionais e racionais.

Machado de Assis se utiliza de subterfúgios narrativos para nos prender em sua trama e nos fazer refletir sobre as questões entregues pelo personagem central, desenvolvendo uma história que nos obriga a interpelarmos sobre os acontecimentos, que ganham maiores solidez com os fatos ocorridos e que reforçam por vezes as afirmações de Rubião (o protagonista) acerca da sociedade a qual faz parte. Seria o homem um ser que se rejubila apenas com aquilo que te traz vantagem? A guerra seria inevitável e necessária na manutenção de uma sociedade? E negarmos os conflitos humanos e lutarmos por um mundo mais igualitário seria o que poderia nos levar ao iminente fracasso e extinção? Questões ao meu ver bastante assertivas e que nos leva de volta ao primeiro páragrafo desta resenha. Seria Quincas Borba (o falecido e não o cachorro) e seu discípulo Rubião realmente loucos?

Indo na contramão dos pensamentos Sócrateanos e do Drawinismo, Machado de Assis satiriza as teorias de sua época, criando uma que fosse talvez mais identificável e espelho da sociedade em si. Trazendo à tona o humanitismo, a teoria que defende a soberania do mais forte sobre os mais fracos, e que deu origem a célebre frase do romance, “[…]Ao vencedor as Batatas!”, deixando claro que quem vence é que fica com o que estava sendo disputado, uma lógica inevitável nas relações humanas, segundo os personagens supracitados.

Escrito e lançado em 1891, estando entre Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1899), Quincas Borba é muito mais do que apenas um dos três grandes romances da tríade Machadiana, considerada como a trilogia realista de Machado de Assis. Consolidou-se ao longo dos anos como uma obra obrigatória no âmbito literário, que explora a fundo as condições sociais, tornando-se em um estudo sobre o homem como indíviduo e como engregagem mais que necessária para o funcionamento da sociedade no geral. Um romance que aborda a usurpação da sanidade alheia, que trata a fundo sobre a ânsia pela ascensão social, que tenta normalizar através do humanitismo as barbáries humanas e que apresenta a lucidez como loucura e a loucura como lucidez, tudo dependerá de sua interpretação como leitor. Dos três livros da famosa tríade, Quincas Borba é o que menos aprecio e o que menos me envolveu, apesar das diversas reflexões que me suscitou. É uma obra magnífica, que exige uma leitura atenta e que nos agrega muito como leitores. Muitas questões a se pensar, muitas críticas e metáforas a se destrinchar e muitas discussões a se adentrar. Em uma sociedade tão doente como a nossa, talvez sejamos todos loucos, só não percebemos ainda que nossa suposta lucidez é apenas a loucura que move o mundo…. Aos vencedores, as batatas!

 

 

 

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