Watchmen: A importância inquestionável da obra de Alan Moore

******************************NÃO contém spoiler******************************

Foi entre 1986 e 1987 que Alan Moore em parceria com Dave Gibbons lançou “Watchmen”, a série de banda desenhada em 12 volumes que viria ao longo dos anos se tornar uma das mais importantes e influentes graphic novel de todos os tempos.

Com a política como pano de fundo, Moore constrói um universo verossímil que se passa em 1985, onde alguns aspectos são realidades, como carros elétricos, a vitória dos Estados Unidos na guerra do Vietnã, a permanência de Richard Nixon como presidente dos Estados Unidos e a existência de heróis, ou melhor dizendo, de vigilantes mascarados. Após uma lei que proíbe a existência desses humanos heróis, alguns passam a exercer suas profissões clandestinamente, alguns se aposentam, outros prestam serviços ao governo.

“Watchmen” é um mergulho pela consciência humana, onde através dos protagonistas e seus dilemas morais, vamos acompanhando uma trama de investigação policial ao mesmo tempo que acompanhamos uma tensão acerca de uma possível guerra nuclear. Após o assassinato de um vigilante mascarado aposentado conhecido como comediante, Rorschach, um de seus ex-colegas de profissão, começa a investigar a causa de tal crime. Uma das coisas mais interessantes é acompanharmos esta jornada através da narração de um anti-herói, que apesar de seus métodos questionáveis respaldados de muita violência, causa empatia no leitor.

Cada personagem tem suas camadas psíquicas e contribuem para toda a carga emocional da trama. São heróis mas não são sobre-humanos, que estão em um patamar muito acima da humanidade. Possuem medos e desejos como todas as outras pessoas que os cercam. O único personagem que transcende esta descrição humana, é Dr. Manhattan, um cientista nuclear que após ter seu corpo desintegrado por acidente, adquire poderes; como o de manipular a matéria, colocando-o na posição de homem-Deus. É através deste personagem que Alan Moore trabalha a digressão dos aspectos humanos, a manutenção do poder divino e as relações artificias que tal evento causaria nas relações de modo geral.

A construção narrativa é formada pelo desenvolvimento de uma história paralela,proveniente  da leitura de uma HQ lida por um personagem secundário, por inserção de páginas de textos de uma autobiografia de um dos vigilantes da trama, de transcrição de entrevistas, de partes de diários, partes de cartas, apresentação de fotografias e flashbacks. “Watchmen” é uma obra completa que navega por todos as curvas literárias. Uma graphic novel parte epistolar e parte narrativa convencional.

Alan Moore desconstrói toda visão que temos de heróis e super-heróis, mostrando todo o caos sócio-político que a existência dessas pessoas poderia causar. A obra-prima de Moore e Dave Gibbons, ao lado de “Batman: Cavaleio das Trevas” de Frank Miller e de “Maus” de Art Spiegelman, é responsável por elevar a importância de histórias em quadrinhos, transformando-os em romances gráficos; colocando-os no mesmo patamar de obras literárias de peso como clássicos da literatura universal.

O traço de Gibbons e a colorização de John Higgins criam um elo impecável com o roteiro de Moore. Há equilíbrio e contribuição criativa que enriquece a obra de maneira surreal. “Watchmen” é vencedora de vários prêmios Kirby e Eissner, e a única graphic novel a estar na lista dos 100 melhores romances eleitos pela revista Time desde 1923.

Ler “Watchmen” foi uma experiência incrível. Eu me apeguei demais a todos os personagens, todas as tramas e subtramas e me imergi tanto que cheguei a ficar assustado. Tal apego emocional fez com que eu fosse impacto de maneira “irreversível” pelo final. Foi um desfecho pertinente, mas confesso que me abalou muito. Eu ainda estou digerindo toda a obra e estou tentando aceitar de maneira mais madura o desfecho que me desintegrou.

“Watchmen” é certamente uma das melhores histórias que já li. Reflexiva e real de maneira divertida, obscura e assustadora. Uma obra atemporal que merece não ser apena lida, mas venerada e degustada com calma. Uma realidade gráfica muito mais próxima da nossa, do que imaginamos.

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