Lázaro: quando Harlan Coben mistura mistério, trauma e o sobrenatural
Crítica de Lázaro, de Harlan Coben (Prime Vídeo)
A série sombria e sobrenatural da Prime Video traz uma nova abordagem ao mistério de assassinato
A televisão virou, de vez, o território de Harlan Coben. E, parafraseando Aldo Raine (Brad Pitt) em Bastardos Inglórios, o negócio está definitivamente bombando. Só neste ano, vimos uma sequência de novas adaptações do autor chegando ao streaming, especialmente na Netflix, com títulos como Missing You, Just One Look e Caught. Enquanto isso, a Prime Video entra no jogo com Lázaro — que não deve ser confundida com o anime homônimo lançado recentemente pela HBO Max.
Escrita por Harlan Coben em parceria com Danny Brocklehurst, vencedor do BAFTA, Lázaro aposta em um mistério de assassinato sombrio, cheio de reviravoltas, com um tempero sobrenatural que foge um pouco do padrão mais “pé no chão” das adaptações anteriores do autor. A série é frequentemente tensa e consegue se manter interessante justamente por explorar esse lado mais estranho e inquietante. Quando funciona, funciona muito bem. Quando tropeça, é mais por escolhas narrativas do que por falta de ambição.

A história acompanha Joel Lazarus (Sam Claflin), um psicólogo forense que retorna à cidade natal após a morte do pai, o respeitado Dr. Jonathan Lazarus (Bill Nighy, de Questão de Tempo). Enquanto passa seus dias no antigo consultório tentando entender o que levou o pai ao suposto suicídio — acompanhado de uma carta bastante estranha —, Joel começa a ter experiências perturbadoras envolvendo antigos pacientes de Jonathan.
Como se isso não bastasse, o retorno para casa reacende um trauma antigo: o assassinato de sua irmã Jenna (Alexandra Roach), ocorrido 25 anos antes e nunca totalmente esclarecido. A partir daí, a série levanta uma sequência de perguntas incômodas. O suicídio do pai foi realmente o que parece? O que há por trás da morte de Jenna? As visões de Joel são manifestações sobrenaturais… ou sinais de que sua sanidade está começando a ruir sob o peso de tantos segredos?
O grande eixo de Lázaro é, sem dúvida, a atuação de Sam Claflin. Não é um papel simples. Joel precisa lidar simultaneamente com o luto, um crime mal resolvido, fenômenos inexplicáveis e uma luta interna constante para não perder o controle. Claflin entrega uma performance intensa, carregada de nuances emocionais, transmitindo fragilidade e determinação na medida certa. Ele convence tanto como um homem racional tentando se agarrar à lógica quanto como alguém claramente à beira do colapso.
Bill Nighy, por sua vez, imprime ao Dr. Jonathan Lazarus uma presença enigmática e quase ameaçadora, mesmo quando aparece de forma sutil. A relação entre pai e filho é crível e bem construída, sustentada por diálogos tensos que ajudam a manter o clima de constante desconfiança. Alexandra Roach também merece destaque como Jenna, trazendo humanidade e estranheza a uma personagem que funciona tanto como lembrança afetiva quanto como peça-chave do mistério.

Narrativamente, a série se apoia em revelações graduais e em uma escalada de eventos sobrenaturais que vão se intensificando episódio após episódio. A fotografia contribui bastante para isso, especialmente nas sequências mais oníricas e desconcertantes, dando a Lázaro uma identidade visual própria. Ainda assim, nem tudo soa tão original quanto poderia. Se retirarmos o elemento sobrenatural, algumas soluções narrativas seguem caminhos bastante familiares para quem já está acostumado com o gênero.
Isso fica evidente principalmente em uma das tramas centrais, que pode soar previsível para espectadores mais atentos. Em contrapartida, o mistério envolvendo o suicídio do pai reserva uma reviravolta genuinamente surpreendente, mostrando que a série sabe jogar com expectativas quando quer.
No fim das contas, Lázaro funciona justamente por causa de seu elemento central mais incomum. O sobrenatural não é apenas um adereço, mas o motor que dá personalidade à série. Nem todas as explicações são igualmente satisfatórias, e algumas decisões — especialmente próximas ao final — parecem um pouco forçadas, mesmo quando bem prenunciadas.
É difícil fazer com que uma série de suspense e investigação soe realmente original, especialmente em um gênero tão explorado. Para se destacar, é preciso encontrar um diferencial claro. Lázaro consegue isso ao equilibrar narrativas bem entrelaçadas com um protagonista constantemente assombrado pelos fantasmas do passado. O resultado é, em grande parte, eficaz. No fim, a série se firma como uma produção muito boa, com identidade própria, embora não chegue a atingir o nível de excelência.
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