O complexo dos Buendía

“Onze anos atrás (1971), o chileno Pablo Neruda, um dos brilhantes poetas de nosso tempo, iluminou este público com suas palavras. Desde então, os europeus de boa vontade – e às vezes aqueles de má vontade também – têm sido arrebatados, com cada vez mais força, pelas novidades fantásticas da América Latina, esse reino sem fronteiras de homens alucinados e mulheres históricas, cuja infinita obstinação se confunde com a lenda.”

Este foi um trecho do icônico discurso de Gabriel García Márquez na ocasião de sua premiação do Nobel de literatura de 1982, intitulado “A solidão da América Latina”, em que ele traz a tona os séculos de exploração e crueldade em nome do progresso, bem como suas consequências para o novo continente, promovidos pela já não tão soberana Europa.

“Não! As incomensuráveis violência e dor de nossa história são o resultado de antigas iniquidades e amarguras caladas, e não uma conspiração tramada a três mil léguas de nossa casa.”

Por todo o corpo do texto, García Márquez destila anos de uma revolta silenciosa que ecoava por cada beco escuro, por cada coração latino, do centro ao sul, e vice-versa, levado pelos ventos fortes que sopram os ouvidos das cordilheiras andinas, alastrado a cada geração, principalmente daquela que nasceu entre as paredes dos porões da ditadura, praga esta que assolou todo continente, financiadas pelas grandes potencias da época.

“Apesar disso, à opressão, ao saque e abandono, respondemos com vida. Nem enchentes nem pragas, nem fome nem cataclismos, nem mesmo as eternas guerras, séculos após séculos, foram capazes de subjugar a persistente vantagem que a vida tem sobre a morte. Uma vantagem que cresce e acelera: todo ano, há 74 milhões de nascimentos a mais do que mortes, número o suficiente de novas vidas para multiplicar, a cada ano, a população de Nova York sete vezes.”

O ativista político, como tantas vezes, falou por intermédio do gênio literário, mas naquele momento, Márquez parecia certo de que àquele era o momento para expor anos de indignação sobre a dor imposta ao povo latino-americano.

É interessante notar como a cada palavra do discurso, revelou-se um pouco da história por trás da obra “Cem anos de solidão”, tecida com os fios do seu realismo mágico e o cerne desta resenha, indigna de sequer julgar uma vírgula da saga dos Buendía sobre a Terra.

Gabriel García Márquez, “Gabo” para os amigos íntimos, nasceu em Aracataca, Colômbia, um pequeno povoado que remonta a pacata Macondo na época de sua fundação, em 06 de março de 1927. Segundo um biógrafo, Márquez insistia em dizer que havia nascido em 1928 sob influencia de um acontecimento em sua infância que foi um marco tanto para sua história pessoal quanto para a história do país e que encontra-se registrada na obra em discussão.

O autor, além de jornalista, roteirista e escritor, foi um grande ativista político em sua época, considerado amigo de Fidel Castro e filiado ao partido comunista. Acusado de organizar uma guerrilha, foi exilado durante a década de 60 para o México, local onde escreveu o livro de sua salvação, tendo em vista as dificuldades financeiras que sofria ao lado da esposa Mercedes Barcha e dos dois filhos ainda pequenos.

“Cem anos de solidão” foi lançado em 1962 e desde então é tida como referencia quando o assunto é a literatura hispano-americana. Está além de um enredo fantástico e por que não dizer louco como a trajetória de vida pós-Europa do continente. Macondo transfigura a América-Latina e a estirpe dos Buendía é a estirpe latina como um todo.

O complexo dos Aurelianos e Josés Arcadíos parte de Riohacha, terra natal da matriarca e do patriarca Úrsula Iguáran e José Arcadío Buendía, movido pela obstinação e alucinação destes últimos, respectivamente.

Macondo surgiu a partir da primeira das muitas desilusões de José Arcadío Buendía (o patriarca). A busca pelo mar, encorajada pelo fantasma de Prudêncio Aguiar, impulsionou o exôdo, mas logo percebeu-se que era uma empreitada natimorta, tal como a volta ao povoado de origem, Riohacha. Então, após dois anos de travessia, próximo a um “rio pedregoso, cujas águas pareciam um torrente de vidro gelado”, fundou-se o palco das venturas e desventuras de toda uma descendência, na qual presenciamos a morte do primeiro amarrado a uma árvore e o último a ser devorado por formigas.

Aureliano, que depois tornou-se “Coronel Aureliano” pelos mesmo vento obstinado que soprou os pais da terra natal, foi o primeiro nativo de Macondo e segundo filho do casal de primos, Úrsula e José Arcadío Buendía, e irmão de José Arcadío, o primogênito que possuía o vigor físico do pai. O então filho caçula era estreito, dotado de uma solidão particular e olhos que, segundo a mãe, eram clarividentes.

Falar sobre a arvore genealógica dos Buendía é também falar de Melquíades, tão importante para história narrada, quanto os próprios. O cigano, mensageiro dos grandes inventos do mundo em Macondo, é uma peça determinante, pois em seus pergaminhos, na ocasião de sua velhice, determinou, em uma espécie de profecia, todo o destino da família em questão.

Assim como a lembrança do gelo, Melquíades integrou-se a memória de infância dos dois irmãos Buendía, José Arcadío e Aureliano e perpetuou-se por todo o restante da descendência como um gene, até o último deles.

Além dos filhos já citados, Úrsula deu a luz a Amaranta, àquela que deixou o mundo assim como veio, e incorporou Rebeca, a garotinha que comia a cal das paredes e a terra do quintal e que com a sua chegada trouxe junto a si um saco com os ossos de seus pais biológicos.

Tal como Melquíades, a extrovertida cartomante Pilar Ternera desempenhou papel importante, sendo a principal receptora dos amores frustrados dos homens Buendía, tanto que os conhecia como a palma de sua mão, pois estes intercalavam-se apenas nos nomes e na idade.

Chamar-se Aureliano ou José Arcadío não era apenas uma escolha limitada de nomes, era uma sina, era uma acrobacia temporal. Todo Aureliano era ensimesmado e parecia ter olhos feitos a partir do etéreo, enquanto os Arcadíos eram vigorosos e obstinados, entregues às veleidades da vida.

Em suma, “Cem anos de Solidão” é uma dádiva literária do realismo mágico inaugurado por García Márquez que tem pontas no sobrenatural nestas terras, visto pelos colonizadores. Desde crianças nascidas com rabo de porco a jovens donzelas que sobem aos Céus em um domingo de fortes brisas, intercalados por galeões repletos de ouro, naufragados a léguas do mar, criaturas com cabeça de bezerro, corpo de homem e asas de anjo, homens marcados por cruz de cinza para morrer, princesas enterradas vivas, mulheres de amores tão ferventes que inspiram a reprodução desenfreada de animais, guerras perdidas, chocolate mágico capaz de fazer padres flutuarem, fortunas construídas a partir de animaizinhos de caramelo, guerras solares, ciganos e um mundo de absurdos que tem maravilhado o mundo há quase 60 anos.

Por fim, concluímos que a solidão de um Buendía é a nossa solidão e nos círculos que o tempo forma, enxergamos nossa própria história, cheia de saltos e quedas, guerras perdidas e perdas não ditas, encerradas em vagões de trem furtivos, rumo ao mar.

Percebemos que nossa imaginação é um excesso que nos torna menos reais, tal como disse o próprio Gárcia Márques, no entanto, esta mesma nos torna capazes de construir “uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.”

E é por isso tudo que os convido a conhecer um lugarzinho chamado Macondo.

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