Mundo das Resenhas
Olhos D’água: “Oh Deus! Qual o motivo de tanta dor?” Olhos D’água: “Oh Deus! Qual o motivo de tanta dor?”
4.5
******************************NÃO contém spoiler****************************** Autora: Conceição Evaristo Editora: Pallas / Coletânea de contos / Idioma: Português / 116 páginas.  Como regredir no tempo de forma... Olhos D’água: “Oh Deus! Qual o motivo de tanta dor?” 4.5

******************************NÃO contém spoiler******************************

Autora: Conceição Evaristo

Editora: Pallas / Coletânea de contos / Idioma: Português / 116 páginas. 

Como regredir no tempo de forma “inevitável”, entrar em contato com as dores de Olhos D’água é como voltar a ser aquele que um dia estava prestes a conhecer as dores do mundo. Como uma flor que desabrocha, mas que vencida pelo tempo regride ao ponto de sumir se fundindo ao vento e ao tempo, eu, eu mesmo, o desavisado leitor da obra, sofri uma regressão ao término da leitura. Mas que regressão foi esta? A dor que me dominou, a falta do amor e a vã tentativa de tentar entender tanta dor e desamor, me tornaram no portador de uma nova dor, uma sensação comum aos leitores que se deixam dominar pelas palavras do escritor, o deus da ficção e da irrealidade, reflexo muitas vezes da realidade do mundo que muitas vezes negamos em enxergar.

A luz do kindle brilha de forma tênue se unindo a  luz da lua que entra pela janela e ilumina meu quarto enquanto passo pelas páginas de Olhos D’água. Estou atento e meus olhos estão embaçados. Meu coração parece diminuir e por mais revoltante que muitas situações se apresentem, pareço não ter forças para reagir tamanha tristeza que me domina. A poesia da escrita de Conceição Evaristo mesclada com a realidade nua e crua da comunidade afro-brasileira em situações precárias, parece ser o grito de aviso da autora. Um aviso de que já passou da hora das coisas mudaram. Já passou da hora de vivermos em um mundo mais justo e consciente de suas injustiças e desequilíbrios sociais. Precisamos de uma consciência mais ativa e menos amortecida.

A cada conto que lia minha posição se alterava. De sentado ia me deitando. Meus olhos outrora “secos”, se encontravam agora molhados. Como o próprio título da coletânea, passo a ter – sem a principio perceber – olhos d’água. Meu coração se acelera e eu grito sem emitir som algum; como alguém incapaz de gritar. “Oh Deus!! Por que tanta dor e injustiça? Qual o sentido de tanta miséria e desfechos tão dolorosos?” Sinto que volto a ser uma criança, um ser que aos poucos vai conhecendo o mundo e suas nuances sociais. Entre denúncias, afirmações e negações, Conceição Evaristo berra aos quatro vezes e compartilha as dores de mulheres, crianças e homens. De seres humanos pertencentes de uma parcela da sociedade renegada socialmente.

Mas a positividade textual prevalece, apesar de tudo. Uma positividade em que escrever é, certamente, “uma maneira de sangrar”; mas também de invocar e evocar vidas costuradas “com fios de ferro” – porém aqui preservadas com a persistente costura dos fios da ficção, em que também se almeja e se combina, incansavelmente, não decerto a imortalidade, mas a tenaz vitória humana, a cada geração, sobre a morte.” [Heloisa Toller Gomes – trecho tirado da introdução a obra]

Termino o último conto em posição fetal, me tornando espelho de um personagem da autora. Meu regresso foi emocional e de adulto me sinto como um feto, alguém que ainda não nasceu e que portanto não sabe lidar com as dores da vida. Me afogo em um mar de lágrimas, e é aí que percebo que choro. Na janela de meu quarto escuto as sensíveis gotas de uma chuva que se inicia. Percebo com dor no coração que não choro sozinho; o mundo chora comigo.

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Fernando Lafaiete

O que vocês devem saber sobre mim? Me Chamo Fernando Henrique Lafaiete, mas vocês podem me chamar de China. Apelido este, dado pelos meus melhores amigos. Sou viciado em leitura, sou poliglota, auditor de hotel, professor de inglês, fã de fantasia, fã de livros policiais, fã de YA, fã terror e fã de clássicos. Luto ao máximo contra o preconceito literário que alimenta a conduta dos pseudo-intelectuais e sou fã de animes e qualquer coisa que envolva super-heróis. Amo escrever todo tipo de texto, em especial resenhas. Espero que minhas opiniões sejam de alguma valia para todos que tiverem acesso as mesmas. Sou sempre sincero e me comprometo a dividir minhas opiniões da maneira mais verdadeira possível. Agradeço o convite para fazer parte do grupo de resenhistas do site e que minha presença aqui seja duradoura.

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