RESENHA: ROSSO E NERO – RENZO DE FELICE

Renzo de Felice é conhecido por ser, além de um especialista em estudos sobre fascismo, um dos maiores historiadores da Itália. Como estudioso da escola historiografia revisionista italiana, revolucionou a interpretação do período que compreende os anos do governo fascista de Benito Mussolini (de 1922 a 1943). O autor coloca em segundo plano qualquer influência ideológica, na busca por uma compreensão (na medida do possível) imparcial dos fatos.

Introdução

O livro utilizado de base para a resenha nunca foi publicado no Brasil e, por isso, todas as traduções de citações da obra ou de autores citados pelo historiador foram feitas por mim. O volume é constituído por uma série de publicações de Renzo De Felice, escritas nas duas últimas décadas do século XX e publicadas pelos principais jornais italianos como “La Stampa”, “Corriere della Sera” e “Panorama”.

A composição desses textos ocorreu pelo interesse do autor de refletir sobre as questões relativas ao significado que tiveram, no cenário nacional, a crise do 8 de setembro e a Guerra de Liberação, assim como as polêmicas levantadas tanto pela direita como pela esquerda sobre tais temas.

Como se trata de um historiador italiano escrevendo para um público italiano (ou para um público estrangeiro conhecedor dos assuntos relativos ao fascismo), alguns dos termos e datas utilizados serão desconhecidos por parte dos brasileiros. Assim, para evitar desentendimentos e compreensões equivocadas, os termos estranhos serão, na medida do possível, por mim explicados, ainda que de forma genérica.

A priori, o 8 de setembro (8 settembre) mencionado por De Felice diz respeito ao dia oito de setembro de 1943, data importantíssima que definiria os rumos da Segunda Guerra Mundial, pelo menos do lado italiano. Nesse dia, o povo italiano, depois de depor o ditador Benito Mussolini, recebe a notícia de um armistício firmado com os Aliados no dia 3 de setembro e, por nomeação do rei Vittorio Emanuele III, o marechal Pietro Badoglio assume o poder, iniciando o que ficou conhecido como a guerra civil italiana, em que parte do país apoiava Badoglio (incluindo, nesse grupo, os guerrilheiros partigiani) e a outra metade apoiava o deposto Mussoloni, que tentava retomar o poder e a dignidade do seu regime político através da chamada Republica di Salò.

Já a Guerra de Liberação, outro termo que será empregado diversas vezes pelo historiador ao longo do livro, diz respeito ao complexo de operações militares lideradas pelos Aliados, com a ajuda do movimento partigiano, visando a liberação da Itália da ocupação nazista alemã. A Guerra teve início no dia 8 de setembro de 1943, com o armistício firmado entre italianos e aliados, e teve fim no dia 2 de maio de 1945.

Assim, depois de dois anos de combate contra as tropas nazistas que defendiam a República de Salò de Mussolini, os alemães foram derrotados. A liberação da cidade de Milão, coração econômico do país, no dia 25 de abril de 1945, é ainda hoje celebrada pelos italianos como data emblemática da liberação do território nacional do autoritarismo e da ocupação.

Depois de explicados dois dos principais termos, podemos voltar à produção do livro: o autor decidiu reunir determinados textos e uni-los na coletânea, a pedido da editora em questão, mas também por alguns motivos pessoais. De Felice explica que ampliar a visão sobre determinado fato ou contexto histórico é realizar um esclarecimento aberto dos eventos internacionais e nacionais. No caso italiano, o tempo era curto para que o fizesse em meados de 1980 e 1990, uma vez que a versão oficial dos fatos poderia acabar sendo substituída por uma não fiel à verdade histórica e um tanto quanto tendenciosa, o que seria uma grande perda para a própria população do país.

É inegável que parte da crise da consciência nacional italiana nos anos seguintes ao fim do fascismo se devesse ao trauma ocasionado pela Segunda Guerra Mundial. Porém, essa crise identitária tornava os italianos mais vulneráveis a aceitar, a partir de uma operação política e cultural dos grupos de esquerda e até mesmo dos democratas católicos agora dominantes, uma versão alternativa da história, que não havia de fato acontecido e que buscava enaltecer certos grupos. Para exemplificar a alarmante situação, De Felice utiliza a frase de um historiador italiano dos anos 60, Rosario Romeo, que, nessa época, já advertia sobre o perigo da faltado uma rápida atuação dos historiadores depois da ocorrência de eventos extremamente relevantes: “um país separado do próprio passado é um país em crise de identidade e portanto potencialmente vulnerável, sem valores dos quais tirar inspiração e sem aquele sentimento de confiança em si mesmo que nasce da consciência de um desenvolvimento coerente em que o passado se coloca como promessa e garantia do futuro” (ROMEO, 1990, p. 40, minha tradução)[1]

O historiador afirma que irá refletir sobre acontecimentos já estudados (visto que dedicou toda a sua carreira aos estudos sobre o fascismo), mas sob uma nova perspectiva: o olhar de quem acabou de presenciar a queda do Muro de Berlim e todas as suas repercussões no mundo europeu.

Desse modo, para estudar os aspectos culturais italianos nos anos seguintes ao fim da Segunda Guerra Mundial e como esses foram influenciados por diversas ideologias políticas, De Felice afirma ser necessário um novo pensamento crítico da história nacional da Itália, buscando sempre a versão mais neutra e menos tendenciosa dos fatos. Muitas páginas da história italiana, principalmente a partir da ascensão de Mussolini, em 1922, permanecem em branco e, quando não, são preenchidas por interpretações que tendem mais para determinado pensamento político do que para os próprios acontecimentos históricos, sendo claramente dependentes das mudanças e estratégias políticas do momento em que são escritas (presas em esquemas e óticas tradicionais).

Porém, a queda do Muro de Berlim e o fim do regime soviético, vividos pelo historiador, têm um papel decisivo na historiografia contemporânea mundial, uma vez que muitas ideologias são, nesse momento, desacreditadas. Além disso, o impacto dos documentos russos, que são colocados à disposição dos estudiosos a partir de 1991, provoca o questionamento da visão da esquerda sobre a história dos anos 1943 e 1945, principalmente, no território italiano, que predominava até então.

“Uma mesma condição humana comum que permitiu que o país continuasse unido”. Essas são as palavras utilizada pelo autor para exemplificar a proposta de uma visão inédita sobre a historiografia italiana, que procura enfatizar a importância do estudo das mentalidades e da condição humana dos indivíduos que viveram os anos de 43 a 45. Frequentemente, quando se estuda o regime fascista, ocorre a preferência dos autores pela história política, como se somente o estudo das ideologias e sistemas políticos bastassem para a compreensão de um tema tão delicado.

Outro problema enfrentado pelos historiadores do período contemporâneo é o fenômeno do negacionismo, em que se nega a necessidade de novas interpretações históricas. Além disso, a divisão em facções, da mesma maneira que ocorre hoje, no Brasil, ocorria na Itália dos anos 80 e 90: aqueles que se consideravam antifascistas e democráticos se consideravam no direito de denominar fascistas aqueles que discordavam de suas ideias; até mesmo De Felice, ao buscar um diferente paradigma, livre daquele dominado por influências ideológicas, foi acusado de ser contra o antifascismo e excessivamente revisionista.

Portanto, a pergunta principal que rege as demais reflexões feitas no livro é: porque depois de 50 anos a cultura italiana não conseguiu e também não quis fazer, salvo poucas exceções, as pazes com a história do próprio passado?

O objetivo comum de todos os textos da coletânea é, se baseando na pergunta em questão, oferecer aos leitores uma visão que não possui o antifascismo como única ferramenta para entender o significado do que foi a atuação da Resistência nos anos 50, a deposição de Mussolini, a criação da República de Salò e a Guerra de Liberação. Espera-se, com isso, frear o processo de crise de identidade nacional e consequente possibilidade de manipulação, tanto do presente como do passado.

Tutti a casa – Todos para casa

O primeiro e, para mim, um dois mais importantes, texto da coletânea inicia-se com a seguinte pergunta, posta pelo autor: qual é a verdade histórica? A pertinência dessa questão muito bem colocada pelo historiador reside no fato de os acontecimentos posteriores ao fim do fascismo e ao nascimento da república italiana terem sido uma incógnita por muitos anos na historiografia italiana, com pouquíssimos estudos a seu respeito.

O 8 de setembro, apesar de toda a mistificação e significado simbólico que lhe foi atribuído, é definido, pelo autor, como esvaziamento do espírito nacional italiano. Isso se explica porque, com o armistício, a Itália se dividiu. A dissolução do exército em dois “times opostos” marcou profundamente a memória coletiva da população, tanto que esses afirmavam: “as forças armadas italianas não existem mais”.

A burguesia ocupa um papel central nessa divisão ideológica. Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o desfecho italiano foi completamente diferente. Os burgueses foram capazes de reunir o povo em um único sentimento nacional comum, capaz de enfrentar o fim da Grande Guerra. Além disso, mesmo com a mudança para a Tríplice Aliança, o exército permaneceu unido até o fim.

Porém, na Segunda Guerra Mundial, a burguesia assumiu uma posição “neutra”, ou melhor, “em cima do muro”. Em 43, os rumos da guerra levaram a um verdadeiro conflito civil italiano. Os burgueses, o povo e os militares se dividiram: existiam aqueles que apoiavam os Aliados (eram, portanto, antifascistas) e aqueles que apoiavam a Republica de Salò, criada por Mussolini com o apoio alemão.

A partir de 1943, quando os italianos passam a assistir o acirramento dos conflitos dentro de seu próprio território, além das derrotas no front oriental e a perda de suas colônias no continente africano, sabem, de acordo com De Felice, que não estão mais lutando para vencer a guerra, mas apenas aguardando, cansados e desanimados, seu fim eminente. É justamente nesse contexto que assistimos a decadência do sentimento nacional italiano recém-formado na Unificação (1815-1861).

I conti con la storia – Acerto de contas com a história

Outro texto que, na minha opinião, merece um destaque especial, é esse, onde o autor questiona o motivo de a Resistência italiana nunca ter acertado as contas com os números oficiais dos eventos ocorridos de 1943 a 1945.

Os números daqueles que decidiram combater na guerra civil, tanto como fascistas como partigiani, os números dos verdadeiros soldados da Resistência, os números daqueles que desertavam. Todos esses foram, por muito tempo, manipulados e alterados pela historiografia italiana, na busca pela construção de uma imagem melhor daqueles que seriam os governantes da Primeira República Italiana, dominada por ideologias majoritariamente de esquerda.

Assim, o principal esforço do autor, no momento em que escreve, é separar a verdadeira história da ideologia, separar as razões da verdade histórica das exigências das razões políticas. O texto é concluído com uma interessante afirmação de De Felice: “não se pode continuar a estudar a resistência somente do ponto de vista dos combatentes: uma reconstrução dos eventos com os olhos da época, para contar os fatos assim como realmente aconteceram. Essa é a tarefa da História.”

Una lunga zona grigia – Uma longa zona cinza

O texto em questão merece uma atenção especial devido ao diálogo historiográfico estabelecido entre as ideias do autor e aquelas da Escola dos Annales francesa.

De Felice inicia a reflexão com duas críticas. A primeira diz respeito a falha da historiografia italiana de nunca ter estudado o estado de ânimo/espírito coletivo dos italianos durante os trágicos anos de 1943, 44 e 45. Segundo o historiador, estudar um, evento histórico sem estudar as mentalidades dos indivíduos que o viveram é um grave erro que pode levar à uma compreensão inexata dos fatos.

A segunda crítica é feita sobre os anos que seguiram a liberação italiana (a partir de 1945), onde a Resistência e seus descendentes no governo procurou se afirmar historicamente como um movimento popular com grande adesão das massas. O uso dos estudos das mentalidades, iniciado por Marc Bloch e Lucien Febvre, e empregado originalmente por De Felice nas análises sobre o período fascista, demonstra que a afirmação do movimento de resistência era um grande erro historiográfico, já que se sabe que a adesão de grande parte da população à ele não ocorreu, uma vez que essa se encontrava cansada, amedrontada e apenas buscando sobreviver para esperar a derrota.

A análise das metalizadas havia sido, até as décadas de 80 e 90, impedido, tanto pelos extremistas da resistência quanto por saudosistas do regime fascista, que buscavam manipular os dados a seu favor. A forma de pensar dos indivíduos que viveram a Segunda Guerra Mundial permitem a visualização de um quadro geral do período, que pode aproximar o historiador da veracidade dos eventos da época. Dessa forma, De Felice conclui que a adesão à luta armada em ambos os grupos foi mínima. Nos anos finais da guerra, havia uma desconfiança geral, onde a população já não diferenciava mais o “preto” do “vermelho”, nem ideologicamente nem nas ações práticas, apenas não entendia como ainda havia gente disposta a lutar por uma guerra sem sentido e perdida.

La vergogna della razza – A vergonha da raça

Com o livro “Storia degli ebrei italiani sotto il fascismo” ( “História dos hebreus italianos durante o fascismo”), De Felice é o primeiro historiador a afrontar o antissemitismo fascista e suas diferenças com o nazista. O autor busca realizar uma análise neutra e recebe, justamente por isso, diversas críticas, uma vez que deixa as palavras “ódio”, “indignação” e “condenação” de lado.

A possível aversão aos hebreus por parte de Benito Mussolini foi essencialmente política e não ideológica-instrumental. Haviam hebreus fascistas e muitos dentro do próprio governo Mussolini. São utilizados, até certo ponto, como massa de manobra fascista para expandir a adesão ao regime.

Quando a Itália se torna um império colonial, em 1938, o antissemitismo de Estado passa ser uma estrada percorrida pelo Duce. As suas origens se encontram na conquista da Etiópia, momento em que o governo percebe que jamais será uma potência colonial como a Inglaterra ou a França. Isso se deve a inúmeros relatos de homens e mulheres que frequentavam e mantinham relações amigáveis ou amorosas com membros das tribos colonizadas. Para evitar, dessa forma, que a Itália se tornassem “um país que não sabe governar e colonizar aos níveis ingleses e franceses”, e que se submete aos “selvagens”, escolhe-se o racismo como antídoto. E desse racismo colonial se chega ao antissemitismo.

Porém, essa questão não justifica a inserção de nazismo e fascismo em um mesmo termo, o nazifascismo, como foi feito pela propaganda inimiga aliada. Outro fator a ser considerado que impede essa generalização é que Mussolini temia que perseguições violentas aos hebreus comprometessem a sua imagem e popularidade. Além disso, o ditador italiano pensava que a aplicação das leis raciais fosse mais branda, a Itália seria uma referência internacional, dentro do Eixo, aos povos e territórios que temiam a supremacia alemã (no período em que o Eixo estava vencendo a guerra).

Por outro lado, não se pode ignorar a deportação de judeus para os campos de concentração nazista que, apesar de não ter ocorrido em uma escala alarmante, culminou na morte de muitos hebreus italianos, como representado pelo filme “A vida é bela”. Isso porque, a partir de 1941, Hitler passa a pressionar Mussolini cada dia mais para deportar o povo hebreu que vivia em seu território. Apesar das tentativas de contorno do desejo do Führer, através da deportação (em menor quantidade do que a exigida pelos alemães) para locais alternativas que não a Alemanha, alguns indivíduos acabaram sofrendo as consequências do antissemitismo germânico.

Dessa forma, De Felice conclui que, por serem brandas até certo ponto, as leis raciais italianas não despertaram um sentimento racista e de ódio aos judeus nos italianos como despertou nos alemães.

Conclusão

A obra de Renzo De Felice, ao combinar diversas fontes, realizar diversos diálogos com outras escolas historiográficas, estudar os dois lados das ideologias e analisar desde o particular ao geral, oferece, aos leitores, uma visão completa e panorâmica sobre a história do governo fascista. O historiador indaga as motivações e as mentalidades coletivas e, ainda assim, consegue não utilizar uma interpretação pré-fabricada dos fatos, percorrendo novamente os acontecimentos e dando-lhes uma interpretação inteiramente nova.

Ao mesmo tempo que gosta muito de falar de política (como percebemos a partir de uma leitura atenta da coletânea), não é possível atribuir a Renzo De Felice uma etiqueta ideológica. Um dos principais objetivos do autor, presente de forma clara em seus textos, é justamente separar a sua ideologia dos eventos históricos, recorrendo, para isso, aos documentos e aos relatos individuais.

O ramo da historiografia italiana que estuda o fascismo certamente necessitava de uma série de revisões, que o nosso autor realiza de forma magistral. “Rosso e Nero” é uma obra que mesmo refletindo sobre o passado, diz aos seus leitores muito mais sobre o presente do que qualquer livro de atualidades, e acredito que a coletânea do livro tenha sido pensada justamente com esse objetivo.

 

[1] ROMEO, Rosario. Scritti politici: 1953 – 1967. Milano: Saggiatore, 1990, p.40

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